2014-01-07

Se Renan Calheiros tivesse coragem de ficar careca

O último abuso do nada excelente presidente do Senado, Renan Calheiros, foi usar um avião da FAB para ir de Brasília a Recife fazer implante capilar. Claro que ninguém dá a menor pelota para o implante. Quem o vê com freqüência, no máximo, talvez dê algumas risadas. O minimamente notável para comentário é o abuso de poder e a suposta declaração falsa de que a viagem era a serviço quando requisitou a carona.

Na verdade, nem a irregularidade chega ser notável por ser corriqueira no Brasil. Possivelmente revoltante, mas esse tipo de abuso já é tão periodicamente divulgado que cidadão já foi dessensibilizado. E ele devolveu o dinheiro no final, né? Com valores foram calculados pela Força Aérea Brasileira, mas desconfio não incluem a taxa de conveniência de poder solicitar um avião a qualquer momento para fins particulares (talvez a Comissão de ética do Senado pudesse calcular essa taxa). A história vai morrer, e não deve existir punição ou reprimenda ao senador. Talvez se a história envolvesse prostitutas de luxo, drogas e vídeos talvez ganhasse mais umas duas semanas de atenção.

Se a irregularidade virou banal e sem graça, o dinheiro gasto poderia ter algum benefício social. E se Renan Calheiros assumisse a careca e doasse o dinheiro? E se doasse os R$ 27.390,25 da carona de avião oficial mais o custo da operação? Arredondando pra baixo, deve ser uns 40 mil reais no total. Nenhuma fortuna, mas fiquei pensando em coisas que poderiam ser mais úteis, prazerosas ou interessantes que o cabelo implantado do Renan Calheiros. Por exemplo:

  • 130 bolsas família no valor máximo do benefício de R$ 306 reais. Mais de 10 anos de benefício para uma família. No mínimo uma geração de uma família teria alguma chance de romper o ciclo da pobreza. 
  • 40 aparelhos de ar condicionado suficiente para um quarto (sem instalação e frete). O calor não tá fácil e seriam 40 famílias mais felizes.
  • 2366 assinaturas básicas da Netflix. Muito mais divertido que a TV Senado. Melhor pra saúde mental que o Jornal Nacional.
  • 571 garrafas de vodka Absolut ou umas vinte mil latas de cerveja Skol. Novamente, muito mais felicidade gerada que o novo penteado do Renan Calheiros.
  • 10 passagens Brasília-Shangai só de ida. Já seria um começo para a moralização do congresso brasileiro.
  • 1142 rodízios de pizza. Suficiente para cada congressista ir duas vezes.
O universo de possibilidades é quase tão grande quanto a falta ética do presidente do Senado, mas poderia ser o começo de uma redenção para Renan Calheiros e colegas que seguissem a sugestão. Congressista rico não falta no Brasil. E se for pra sonhar, quem sabe um dia teremos um servidor público como o ex-prefeito da cidade de Nova York, Michael Bloomberg, que gastou 650 milhões de dólares de sua fortuna pessoal com despesas do cargo.

2013-09-18

Eu e elas

Quando rompi com CC, a relação já tinha muitos anos, estávamos unidos desde a minha primeira infância. Meus pais dizem que gostei dela desde o início: adoração completa, uma sede de quero mais. Nessa inseparabilidade, estivemos juntos até meu último ano na universidade. Talvez alguns casamentos durem mais que isso, mas e daí? Para mim, foi uma eternidade. Sempre achei que nunca iria desistir dela, que ela me acompanharia onde eu estivesse, em qualquer situação.

O rompimento não foi brusco nem bem delimitado temporalmente. Talvez porque nenhum acontecimento extraordinário tenha precipitado o fim. Também não houve um fim antecipadamente anunciado. Nem drama intenso, nem sofrimento prolongado. Lembro que não era falta de desejo. Aconteceu que me dei conta de que a relação não seria eterna, não teria nem um longo prazo. Estava entrando em um novo ciclo de vida e ela precisava ficar para trás. Tentei não pensar demais no fim, não avaliar prós e contras. Ainda que o vínculo fosse antigo, o resto da minha vida era mais importante. Iria acabar, precisava acabar.

Nos primeiros dias, a falta dela era visível. Precisei de um autocontrole que nunca tinha praticado. Tragicamente, o autocontrole faltava por culpa dela, que estava sempre ao meu lado e era também minha fonte principal de autocontrole. Sinuca de bico, catch 22, tudo indicava que nosso rompimento não aconteceria. Muitos amigos disseram que eu não conseguiria, que meu apego a ela era forte demais. Minha fraqueza por CC sempre foi ululante e assumida.

A solução foi trocá-la por uma mais nova. Uma prima mais nova de CC! Por tradição familiar ainda tinham o primeiro mesmo nome: meu futuro seria com CZ. Talvez tenham dito que eu era insano, fora da casinha mesmo. Para mim era natural. Se fosse um matemático, desenvolveria uma lógica para me justificar. A semelhança física entre CC e CZ ajudou. A cintura fina de CZ fez um mundo de diferença. A novidade e a beleza exótica fecharam o pacote. Era um rompimento, mas sem vandalismo.

Os clichês foram inevitáveis. Tive recaídas com a ex e senti uma culpa cristã que nunca tive. Não eram diárias e eu tentava me justificar. Culpei os dias de calor, quando CC aparecia onde eu estivesse com suas curvas e toda de vermelho: única e inebriante. Cintura fina e corpo de modelo eram uma delícia também, mas as curvas de CC tiram muita gente do sério. Era penoso tentar ser a exceção. CC sabia da prima, que também sabia do desejo que CC me despertava. CC sabia que hábitos antigos são difíceis de superar e, na sua autoconfiança inabalável, sabia que eu vacilaria de vez em quando. A prima CZ, ainda que pudesse estar insegura, sabia do meu comprometimento com a mudança. Mas sabia também que, por ser mais nova em minha vida, eu iria precisar de um tempo até me sentir conquistado. 

Pensei até em ter o melhor dos dois mundos. Às vezes as curvas e a intensidade de CC, em outras, o corpo ideal de CZ e uma suavidade que me fazia querer sempre mais. Mas eu sabia que seria uma atitude covarde, uma infidelidade que teria de justificar socialmente a todo momento. A ex precisava ficar na memória, eu precisava chegar a um estado que não cedesse ao desejo, que não precisasse nem resistir. Em mais uma estratégia para me afastar de CC, conheci outras. Experimentei bastante, repetidamente com algumas até. Talvez uma terceira que não fosse relacionada às duas primas me ajudasse a superar a ex. Algumas tinham as curvas de CC, outras aproximavam o ideal de magreza de CZ, mas nenhuma me despertava um desejo que eu sentisse ser duradouro. Foram passatempos.

A mudança aconteceu. Em alguns meses, já estava completamente habituado e desejando intensamente CZ. Mesmo nos dias quentes, ela já ficava deliciosa em seu pretinho básico. A ausência de curvas era uma saudade, mas dessas que não dura mais que dois segundos e meio. Não era que eu já me considerava um entusiasta das retas, mas na minha nova vida era mandatório que eu estivesse longe de CC para ser mais saudável. As curvas haviam ficado no retrovisor, as retas se estendiam no limite do horizonte.

A relação com CZ já dura muitos anos. Já é sólida, íntima e ainda com aquele gosto de que nunca irá acabar. Objetivamente sei que é uma improbabilidade, mas nem penso em alternativas. Ainda assim, sou humano e às vezes preciso de YOLO (You Only Live Once). Não são encontros planejados, nem me causam mais culpa. Nos piores dias do verão, os encontros ocasionais com CC, sempre de vermelho, refrescam a minha memória e meu desejo. Com CC, sempre ao meu alcance, revivo o passado de prazeres. Agora, o que era uma dificuldade em abandonar o passado tornou-se o eventual delicioso, exótico e não planejado. A eternidade não era possível com CC, mas minha vida com CZ ainda é as good as it gets

Quase hora do almoço e já começo a pensar no encontro habitual com CZ. É um dia mais frio que o normal e a lembrança de CC não deveria ter retornado. Mas não quero que a excepcionalidade seja previsível. Hoje vai ser Coca Cola, não Coca Zero.

2013-07-03

Mudança? Não para nós.

"Há uma quantidade infinita de esperança no universo... mas não para nós" - Franz Kafka

Estive em silêncio essas semanas enquanto o Brasil saía às ruas. Os motivos eu só tenho post hoc: não gostar de fazer previsões sem dados, não ter participado diretamente das manifestações (tenho alergia a vinagre), não ser uma luta particular minha (pode me chamar de egoísta). Inicialmente tive a impressão de que alguma coisa pudesse mudar ou uma mudança forçada talvez pudesse acontecer. Uma vaga esperança, mesmo com meu pessimismo persistente.

Mas hoje despertei após uma noite de sonhos inquietantes sentindo as costas tão duras que pareciam revestidas de metal. Abri uma página de notícias na internet e a realidade me jogou na cara que mandaram cancelar a esperança. Mesmo com todas as manifestações populares, o presidente da câmara dos deputados, o terceiro na sucessão presidencial, esfrega na cara do contribuinte que não está nem aí para moralidade, para o uso responsável do dinheiro público e usa um jato da Força Aérea Brasileira para ir de Natal ao Rio de Janeiro com família e amigos assistir à final da Copa da Confederações 2013. 

Após a denúncia da imprensa, e unicamente porque a farra se tornou pública, o deputado Henrique Alves declara que irá ressarcir o contribuinte com o valor das passagens. Posso imaginar como será a devolução: pelo preço da passagem promocional mais barata entre Natal e Rio de Janeiro em baixa temporada e paga com muita antecedência. Ou alguém imagina que será o custo de deslocamento do jato para Natal depois Rio, de volta a Natal e de volta para onde o jato estava, já incluindo o salário do piloto e tripulação. Henrique Alves tenta ainda justificar a viagem como se fosse para uma suposta reunião de trabalho no Rio de Janeiro no sábado. Na mais surpreendente das coincidências, a reunião aconteceu na véspera do jogo que foi assistir. Como já ia mesmo, uma carona não pareceu ser um problema.

Essencialmente, Henrique Alves está colocando cada contribuinte de quatro e metendo sem lubrificante. Está mostrando pra quem quiser que o Brasil do privilégio, do "manda quem pode, obedece quem tem juízo" continua sem qualquer tentativa de acobertamento. Não houve equívoco ou descuido. Não foi erro inocente. Houve claro e deliberado planejamento para usufruir do dinheiro público para seu prazer pessoal. Foi a resposta do presidente do congresso às manifestações. Com a crueldade adicional da exibição pública, por seus amigos e familiares, de fotos em redes sociais exibindo publicamente a felicidade de estar assistindo ao jogo sem pagar a passagem.

Cidadão brasileiro esperando a sua vez.

Se alguma punição ao deputado irá acontecer eu não sei, mas poucos acreditam que vai. O deputado Henrique Alves só o fez porque sabia que nada aconteceria. Sabia que não teria seu pedido negado ou questionado. Estava plenamente consciente do ato, do seu poder de pedir e ser atendido no mais absurdo dos pedidos. Quem recebeu o pedido não o contestou. Quem atendeu ao pedido não contestou. Quem pilotou o avião e viu família e amigos do deputado entrando obedeceu as ordens cegamente. Nenhum dos funcionários que souberam do fato denunciou publicamente o acontecimento.

Num mundo ideal, o deputado seria forçado a renunciar da presidência e de seu mandato (por vontade própria, nem no mundo ideal) e sua carreira política viraria história a ser esquecida. Mas sou pragmático e vou dar algumas sugestões, ainda que utópicas:

1 - O povo sair às ruas e pedir a renúncia de Henrique Alves. Entendo se não rolar porque os manifestantes já estão cansados. Mas poderia ser uma renovação de pauta.

2 - A presidenta pedir a renúncia de Henrique Alves. "Aí seria interferência do Executivo no Legislativo!", gritariam os puristas. Mas o Executivo já controla o legislativo e seria por um bem maior. Como provavelmente um pedido não daria certo, teria de ser uma chantagem do tipo "o mandato ou os cargos ocupados pelo PMDB até o milésimo escalão do Executivo Federal".

3 - Os outros deputados abrirem processo de cassação contra Henrique Alves. O governo teria de dar algum apoio e poderia ser uma boa oportunidade da presidenta ganhar popularidade. 

Todas são possibilidades teóricas. O que desanima é que será necessário um suplente assumir a vaga e um novo presidente do congresso ser eleito. A sensação de que o ciclo continua é inevitável. Idéias como guilhotina vêm à cabeça (não resisti). Reforma política com aplicação só em 2016 deixa qualquer um sem esperança. Fazer o quê, então?

É preciso concentrar esforços. Sonhar que um dia teremos uma população educada o suficiente para achar que obedecer quem é indicado/eleito é completamente irracional. Sonhar com um dia em que representação política não será uma profissão com aposentadoria especial, mas apenas a dedicação temporária de um cidadão para representar outros pelo bem comum.

A educação no Brasil está melhorando e deve continuar a melhorar. Mas vai demorar. Duas gerações, meio século, por baixo. Já o modo de representação política pode mudar quase instantaneamente. É preciso tirar o dinheiro da política. Possibilitar que o cidadão não-milionário e não vendido possa ser eleito. Financiar as campanhas políticas exclusivamente com o dinheiro público. Vai custar um bilhão? Dez bilhões? É uma conta muito mais barata para o contribuinte que ter representantes corruptos fantoches de empresas e do 1% mais rico.

Se não der certo, o Brasil tem aço suficiente pra muita guilhotina.

2013-06-12

Dilma Roussef e o estilo de gerência da burocracia brasileira

Matéria bonitinha (e ordinária) da Folha de São Paulo fala das visitas da presidenta Dilma Roussef à cabine do avião da presidência da república. Segundo a reportagem, a presidenta, por não gostar de turbulência em seus vôos, palpita sobre a rota do avião, quer saber sobre os instrumentos, cartas meteorológicas, formato das nuvens e tudo mais. E quando, ainda assim, o vôo tem alguma turbulência, aciona um botão para avisar ao comandante do vôo que não gostou do sacolejo: uma bronca eletrônica. No fim, até o comandante, o tenentente-brigadeiro-do-ar Francisco Joseli Parente Camelo, ri (amareladamente?) das exigências da presidenta. Como não rir? Ela é mandona mesmo, é o estilo dela, né?

Um observador externo, e que desconhecesse a burocracia brasileira e sua história, poderia pensar que o comportamento da presidenta é uma excentricidade, um caso isolado, um traço de personalidade. Espantosamente, uma jornalista que comenta sobre política no Brasil dá o mesmo tratamento de exceção. A única diferença é que a jornalista, para não perder a sua viagem, lembra que as viagens da presidenta custam mais para o contribuinte. Mas essa ressalva ao comportamento provavelmente nem vai gerar indignações ou uma resposta da presidência da república. Nem mesmo eu vou dar qualquer pelota para o gasto maior. Talvez até conseguisse defender a presidenta se ganhasse para isso. O mais relevante no comportamento supostamente atípico da presidenta é o que ele representa, o que ele exemplifica.

Para entender o que o comportamento exótico da presidenta, mas aceitável, representa, vamos continuar com a perspectiva do observador externo. O piloto do avião é um oficial de carreira da aeronáutica e no topo da hierarquia meritória (ou quase lá). É um piloto experiente a quem se confia a integridade física da presidenta, ministros, secretários de estado, assessores (o próprio piloto tem o cargo de secretário de estado). Seu treinamento e carreira custou milhões de reais ao contribuinte. Possui os requisitos de competência, experiência e responsabilidade para o cargo. Ainda assim, ele é micro-gerenciado por uma chefe sabichona e tratado, essencialmente, como o estagiário que vira o bode expiatório quando qualquer problema besta acontece (a turbulência).

Já a presidenta sabichona que não gosta de ser contrariada e, justificada por um suposto estilo pessoal (se ela não tivesse um cargo seria "gênio difícil"), prefere desconsiderar todas as qualificações do comandante do avião oficial porque "não gosta de turbulência". Não é suficiente ter pedido uma ou duas vezes que ele, por favor, tentasse evitar turbulências. É necessário verificar pessoalmente o que ele está fazendo para evitar turbulências. Alternativas como deixar pra lá a turbulência, como ela fazia quando não usava avião oficial, não são mais uma possibilidade. Que tal um calmante para relaxar ou fazer uma terapia para superar o medo de turbulência? Sem chance. Mais fácil mandar porque pode mandar, independente de conhecimento técnico, do ônus para o contribuinte, da qualificação do piloto. E como o cargo do piloto não depende só de qualificações, é fácil arranjar outro que queira ter um salário que supera o da presidenta. O capricho de não arriscar que o suco de laranja respingue no terninho é o que importa. Objetivamente, o observador externo só poderia concluir que a situação é alucinatória. Um Machado de Assis ou um Jorge Luis Borges conseguiriam extrair um bom conto sem precisar exagerar.

Mas no contexto da burocracia brasileira, o que parece surreal torna-se banal. Ainda que seja, talvez, um traço de personalidade de Dilma Roussef, seu comportamento autoritário só é possível porque comportamentos similares sempre foram aceitos, tolerados e comuns desde muito antes de Dilma se tornar presidenta. Se os modelos e práticas profissionais ao seu redor mostram que é possível, e talvez até mais efetivo, ser autoritária, por que se reprimir? Por que mudar? Para quê considerar, respeitar a competência do outro? Mais fácil exigir que seja sempre do meu jeito, sem contestação. De quebra ainda dá uma publicidade gratuita para o governo.

Transparência pública, accountability, gestão para resultados, meritocracia. Tudo gracinha e super-duper moderno. Dá a aparência que o o Estado brasileiro está mais profissional. Talvez o contribuinte até acredite. Mas nas relações de trabalho, o que acontece, e que se espera que aconteça, é secretária servir café e marcar consulta médica particular, motorista levar esposa de juiz ao shopping com carro do tribunal, secretário de estado usar carro oficial para ir à academia, juiz morar em apartamento funcional de mais de 400 metros quadrados. O que importa, que dá resultado, são os favores prestados e cobrados, os privilégios do cargo. A hierarquia, mesmo entre os servidores civis, ainda é vista como uma relação entre patrão e empregado, não como de colaboradores com diferentes responsabilidades e que trabalham pelo bem público. Um ditado idiótico, e repetida ad nauseam na administração pública brasileira, sintetiza essa tradição: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo".

Imagino que tipo de revolução precisará ocorrer no Brasil para que as relações de poder não sejam abusivas. No meu idealismo, sonho com uma revolução da massa dos servidores públicos que não mais aceitam a hierarquia tradicional, as arbitrariedades, o sistema da troca de favor, do jeitinho para o amigo do rei. Uma Revolução pacífica com as armas substituídas por carimbos (tinta vermelha?).

Mas a realidade é que a arma do status quo para se manter é muito mais poderosa: dinheiro. Há cargos comissionados o bastante na administração federal para comprar cumplicidade: seja para os que ocupam os cargos, sejam para aqueles que desejam ocupar os cargos. O dinheiro, mesmo temporário, compra idealismo, compra vontade de mudança, compra silêncio.

E nunca muda? Talvez mude. Devagar. Por pressões externas, por atos isolados e até mudança cultural. Mas a vida é curta e imprevisível. Esperar cansa, é tedioso.

Então eu esperneio, discordo e critico. Lembro que estar vivo é uma improbabilidade estatística. Que o improvável também acontece*. E tentar mudar pode ser divertido, ainda que desajuizado.

Meu cabelo tá quase lá!

* Não me interpretem como um defensor da loteria. Só jogue na mega-sena se você deseja pagar mais imposto.

2013-05-07

Virou moda: mais missas/cultos em repartição pública

a mãe parece meio zangada...


As manchas deixadas pela água benta da missa da CAPES do dia 16/04 acabam de sair e já estão programados mais dois eventos religiosos: uma missa no dia 9 de maio e um encontro do grupo de orações no dia 7 de maio. Ambos em auditórios do edifício onde a CAPES funciona. Ambos com autorização dos responsáveis pelo espaço (assumo que existe permissão porque houve divulgação ampla).

Se é de causar indignação que os eventos aconteçam, infelizmente, não há surpresa. A onda conservadora/religiosa no Brasil é pervasiva e servidores públicos não seriam exceções. Os eventos dentro do local de trabalho são uma conseqüência provável e com precedentes. Se (quase) todo mundo é religioso, se a religião é vista como algo positivo, por que limitar a religião aos espaços fora do trabalho? A quem prejudicaria, afinal?

desculpa da vez: se é pela mães, então pode.


Aparentemente a resposta não é óbvia para os que promovem as missas, então é necessário educá-los minimamente. A separação entre igreja e estado, o estado laico, é uma conquista cultural relativamente recente na história humana e ainda não é universal (vide estados islâmicos). Nos Estados Unidos e Europa, essa separação começou a se tornar regra no final do século 18 e se consolidou no século 19. No Brasil, só surgiu com a constituição de 1881. A idéia é que o estado seja neutro em relação à religião e qualquer cidadão pratique sua religião, ou não pratique qualquer religião, sem interferência do estado. Além de ser uma ampliação das liberdades individuais, o estado laico serviu e serve para proteger minorias de perseguição religiosa. Para que isso aconteça, o estado não apóia ou dificulta qualquer religião e nem a ausência de religião. Religião simplesmente não é assunto do estado (e sem tercerização). Nisso, religião é como sexo: qualquer tara/rito vale, desde que haja consenso e os direitos do outro sejam respeitados. Com a vantagem de que religião pode rolar ao ar livre. Como ser contra esse princípio?

Explicitamente, ninguém é contra o estado laico no Brasil. Ninguém parece querer que as regras divinas se apliquem como leis civis. Desejar a mulher do vizinho pode ser pecado, mas (graças a deus?) não dá cadeia. Apesar desse laicismo para as coisas boas da vida, é fato que religiosos tendem a achar que sua seita é melhor que as outras. Até aceitam a existência da diversidade, mas o outro sempre está errado, na essência ou nos detalhes. Daí não é difícil entender porque querem que seu gosto de crença alcance o maior número possível de pessoas e uma forma eficiente de espalhar uma crença é torná-la oficial. Como a oficialização não é mais possível, ou a vizinha e o divóricio não seriam possíveis, poder contar a grana extra do contribuinte ajuda. Quem tem o poder de se fazer cumprir a separação entre estado igreja geralmente prefere se abster a ser censurado socialmente ("Como você pode ser contra a palavra de JC?") e acaba de convencendo que não há nada errado.

Quase que obviamente, essa ganância de beneficiar uma seita mais que outras é uma atitude míope. Tem sorte aquele está incluído no grupo favorecido, mas não há garantias de que esse favorecimento seja eterno. Evitar o enfraquecimento do estado laico não atende apenas o interesse de ateus e secularistas, mas também o de religiosos. A separação entre estado e religião tenta assegurar que a liberdade de praticar qualquer religião continue existindo independente de caprichos de governantes ou de desejos da maioria. Tenta assegurar que qualquer um adore ou ignore a sua versão de papai noel para adultos sem ser incomodado ou discriminado. Possibilita que o religioso tenha o direito de se achar absolutamente certo e não ser contrariado.

2013-05-02

Missa em repartição pública pode, Arnaldo?

Advinha se mandaram pra mim?


É correto realizar uma missa católica dentro de uma repartição pública? E dentro de uma repatição pública com não-católicos e ateus? E dentro de uma repatição pública com não-católicos e ateus num estado laico?

Encontro dois tipos de resposta predominantes à uma pergunta que deveria ser retórica: 1) Não; e 2) Mas qual o mal? É só uma missa... A resposta 2 é, na verdade, uma desculpa. Uma admissão de culpa e uma relativização do problema: "Pode não ser certo, mas qual o problema?" Felizmente, não precisamos considerar nenhuma das duas respostas. No Brasil, a resposta vai além do certo, ou "que mal tem":

"Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;"- Constituição Federal de 1988

É um artigo obscuro da constituição brasileira, admito, mas a parte que importa é a da subvenção, i.e., a ajuda financeira do governo. O dinheiro não foi dado na mão do padre, mas o local, ar condicionado, iluminação (talvez até café) foram fornecidos com o orçamento da união. Sendo o evento uma missa, a exceção do interesse público não existe. O interesse foi do padre e dos católicos que assistiram à missa. Ainda que tenha havido pagamento, um órgão público da área de educação não deveria estar no ramo de aluguel de espaço para eventos.

A missa aconteceu e ninguém deu pelota. Quem ousou se indignar foi silenciado pelos idiotas-do-deixa-disso: "Que bobagem, é só uma missa. As pessoas gostam." Quem não acreditou que o princípio do estado laico fosse ignorado por dirigentes públicos de gordas gratificações, passou por idiota. Quem sonhou que trabalhar numa repartição pública o protegeria de louvações à moralidade cristã no ambiente de trabalho, acordou gritando do pesadelo.

Mas o que esperar de uma religião dominante? Respeito à constituição? Respeito ao dinheiro do contribuinte? Respeito ao estado laico? Respeito ao próximo? Religião, como sempre, ganha passe livre no dever de respeitar (ou de pagar impostos).

E ainda deixa claro o que deseja para os que não obedecem cegamente à palavra de JC:


"Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus.
Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder." -- 2 Tessalonicenses 1:8-9 (não, não é o velho testamento)